Os treze filmes da minha Vida - parte 1
- 6 de fev.
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Atualizado: há 1 dia

Existem filmes que passam por nós e se perdem com o tempo. Outros revisitamos quase por costume, mas existe um terceiro tipo: aqueles que nos marcam, que despertam algo ou simplesmente nos conquistam por completo. Eles não permanecem apenas na memória de quem os assistiu; ajudam a moldar nossa relação com o medo, o sagrado, a solidão e até com o próprio destino.
Quantos autores não passaram a se dedicar aos gêneros de seus filmes preferidos? Quantos desenhistas não trilharam esse caminho?
Como escritor e diretor de teatro, carrego esses filmes como parte da minha formação. Eles compõem uma espécie de cartografia íntima; um mapa silencioso feito de imagens, sensações e lembranças. Ao lado dos livros que li e reli, ajudaram, pouco a pouco, a formar minha gramática visual e narrativa.
A ideia de compartilhar essa lista com meus leitores e seguidores me acompanha há muito tempo. No início, ela era maior; sempre me considerei um apaixonado pela sétima arte. Por isso, precisei fazer um cuidadoso trabalho de filtragem até chegar aos treze finalistas.
Esta não é uma lista dos “melhores do mundo” sob critérios técnicos; são os filmes que, de alguma forma, estiveram e continuam ligados a momentos, escolhas e acontecimentos significativos da minha vida.
Cada filme carrega uma marca do tempo; um fragmento da minha história, uma pergunta que permaneceu quando as luzes da sala se acenderam. São obras que me acompanharam em diferentes fases; algumas me confrontaram, outras me consolaram, e houve aquelas que simplesmente me mostraram a ver o mundo de outra maneira.
Ao compartilhá-las, não ofereço apenas títulos, mas pequenos portais para momentos que ajudaram a formar o artista que sou e, antes disso, o profissional que me tornei.
Que esta não seja apenas uma lista, mas um convite. Um convite para revisitar memórias, descobrir novos caminhos e, quem sabe, reconhecer em alguma dessas histórias um pedaço da sua própria.
O Senhor dos Anéis (2001–2003): A aventura épica e o sacrifício em nome da verdadeira amizade.
Cleópatra (1963): A opulência do clássico, o peso da história e a política do poder retratando a grandeza de uma rainha.
A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999): O gótico estilizado e uma atmosfera envolvente de mistério.
O Sexto Sentido (1999): A tênue linha que separa o mundo dos que estão e dos que já se foram, magistralmente construída.
Os Outros (2001): A claustrofobia e a revelação dos demônios interiores; uma imersão no horror psicológico e uma aula de final apoteótico.
O Nome da Rosa (1986): O embate entre fé e razão, os dogmas e o quanto a religião moldou os acontecimentos históricos.
Sinais (2002): O confronto com o desconhecido; a inquietante sensação de que não estamos sozinhos no universo.
Drácula de Bram Stoker (1992): a obra prima do terror clássico como alta forma de arte teatral e operística.
Nosferatu (1922): A magia e o horror do expressionismo alemão em sua maior manifestação.
A Noiva de Frankenstein (1935): A tragédia eterna entre criador e criatura.
O Monstro do Himalaia (1957): O isolamento em terras hostis, a ganância humana e o confronto silencioso com o sobrenatural.
A Maldição do Lobisomem - (1961) - O mito da fera e a tragédia de um destino inevitável.
A Máscara de Satã (1960): A beleza plástica e sombria do gótico italiano retratados em uma história de horror, feitiçaria e morte.

1. O Senhor dos Anéis (2001–2003)
Mais do que uma trilogia, O Senhor dos Anéis sempre foi, para mim, uma experiência de imersão total. Como leitor ávido de fantasia e terror, eu já conhecia a obra de Tolkien e, após tantas frustrações com adaptações literárias levadas ao cinema, confesso que minhas expectativas eram cautelosas. Mas a franquia dirigida por Peter Jackson, baseada no universo criado por J.R.R. Tolkien, simplesmente me fascinou.
Além de assistir a todos os filmes no cinema, as versões estendidas tornaram-se uma verdadeira paixão. Já perdi a conta de quantas vezes revisitei essa jornada, e sei que ainda voltarei a percorrê-la muitas outras.

2. Cleópatra (1963)
Cleópatra me apresentou cedo à ideia de grandiosidade trágica. Tudo ali é excesso: cenários, paixões, ambição, poder. Mas, sob o ouro e os mármores, o que permanece é a solidão de quem governa e a fragilidade de quem ama em meio à política e à guerra. É um filme que ensina que a História não é feita apenas de vitórias e derrotas, mas de escolhas irreversíveis.
A primeira vez que assisti a esse clássico, eu tinha por volta de dez anos. O filme é longo: 3h53min; embora a versão exibida na TV fosse reduzida, com os comerciais passava facilmente das três horas, e como geralmente começava tarde, lembro de assistir muitas vezes ao lado das minhas irmãs. Durante os intervalos, corríamos para lavar o rosto e espantar o sono, rs. Elas ainda se recordam disso; eram bem mais novas, coitadas, e deviam sofrer para me fazer companhia madrugada adentro.
Convém lembrar que, naquele tempo, início dos anos oitenta, não havia outra forma de rever filmes que já tinham passado no cinema senão pela TV aberta: Globo, SBT, Band, Manchete, Record e Cultura. Foi justamente por meio da TV Cultura que assisti pela primeira vez a clássicos do terror: Frankenstein, A Noiva de Frankenstein e Nosferatu. Por isso, quando uma emissora anunciava um desses filmes, era sempre um evento. A gente aguardava ansioso; pois, se perdêssemos, sabe-se lá quando teríamos outra chance.
Lembro que certa vez a Globo anunciou Conan, o Bárbaro. Na noite marcada, a família reunida no sofá, tudo pronto; mas, justo na hora de começar, apareceu uma tia que não víamos há tempos. E lá se foi o filme; a tia não se importava nem um pouco com ele e queria mesmo era papear.
Todo esse “sofrimento” durou até a chegada do videocassete e a possibilidade de, além de alugar fitas nas locadoras, gravar os filmes exibidos na TV.
Mas voltando ao clássico protagonizado por Liz Taylor: além de me marcar pela história, ele despertou outra arte que sempre amei; o desenho. Recordo que, na escola, resolvi transformar o filme em uma história em quadrinhos. Um dos primeiros quadros era a chegada de Cleópatra enrolada em um tapete, sendo entregue a Júlio César. Desenhei a rainha com um vestido vermelho, mas escolhi a cor por dedução, pois tinha assistido ao filme em uma TV preto e branco. Anos depois, quando a Globo reprisou o filme e já tínhamos um televisor colorido, tive a alegria de descobrir que o vestido era mesmo daquela cor.
São detalhes que podem parecer simples hoje, mas tiveram um peso enorme naquele tempo. Um valor que carrego até hoje; porque diz muito sobre a minha formação como escritor, romancista e diretor de teatro.

De Cleópatra à Rainha Titânia: Uma Jornada de 30 Anos
Minha trajetória como criador começou com um impacto: Cleópatra. Ainda nos tempos de escola, aquele épico me inspirou a escrever minha primeira peça teatral, A Rainha de Vênus. Naquela época, eu já explorava temas que me acompanham até hoje; a luta política, os envenenamentos, as irmãs em guerra pelo trono.
Ali, naquele texto juvenil, já morava o meu fascínio pelo gótico. Lembro de escrever sobre a filha mais velha mandando prender a própria mãe em um calabouço, sabendo que lá habitava um monstro. O medo não era apenas físico; era uma ferramenta de poder.
Hoje, três décadas depois, vejo esse ciclo se fechar. O que nasceu como uma peça escolar amadureceu, ganhou as camadas de todas as sombras e luzes desses filmes, e se transformou no meu livro mais recente: Rainha Titânia.
Escrever é, no fundo, organizar as imagens que nos assombram e nos encantam ao longo da vida. Se Rainha Titânia caminha hoje por um mundo de intrigas e sombras, é porque carrega em seu DNA o brilho de Alexandria, as sombras do gótico e o silêncio dos casarões antigos.

3. A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999)
A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, lançado em 1999, com a magistral direção de Tim Burton, é estrelado por Johnny Depp e Christina Ricci. Baseado no conto clássico de Washington Irving, o filme me impressionou sobretudo pela estética; uma atmosfera sombria e acinzentada, envolta em névoa constante e florestas que parecem observar os personagens.
Na trama, Ichabod Crane é enviado ao vilarejo de Sleepy Hollow para investigar uma série de mortes atribuídas a um cavaleiro sem cabeça. Ali, seus métodos científicos e investigativos são colocados à prova diante de um horror que talvez não obedeça à lógica. Para mim, é um estudo magistral de como o cenário pode se tornar um personagem vivo e opressor.

4. O Sexto Sentido (1999)
O Sexto Sentido conta a história de um garoto que vê o espírito de pessoas mortas e de um psicólogo, Malcolm Crowe, que tenta ajudá-lo a decifrar esse fardo. O que parece ser apenas um suspense sobrenatural revela-se uma obra de camadas profundas. Sempre me impressionou pela precisão da sua construção; a cada nova revisão, descobrimos um detalhe, um rastro, uma pista que antes passara despercebida, provando que nada ali é mera figuração; tudo converge para o clímax.
Assisti pela primeira vez em uma sessão de cinema, algumas semanas após a estreia, por indicação de um amigo. Fui sozinho. A sala estava quase vazia; havia uma atmosfera sombria, quase palpável. E a famosa frase do garoto; “Eu vejo gente morta… o tempo todo”; soou como uma pontada na alma.
Aquele filme me ensinou que o medo, para ser eficaz, não precisa de litros de sangue jorrando diante do espectador; tampouco de gritos exagerados ou sustos repetidos à exaustão. Ele me mostrou que o horror pode ser delicado, quase triste, e que a maior revelação, muitas vezes, não está no além; mas na própria condição humana.

5. Os Outros (2001)
Os Outros se passa em um casarão isolado na Ilha de Jersey e acompanha Grace, vivida por Nicole Kidman, que aguarda o retorno do marido da guerra enquanto cuida dos dois filhos. As crianças sofrem de uma doença rara que as impede de se expor à luz solar, obrigando a família a viver em uma penumbra constante, com janelas vedadas por pesadas cortinas.
Poucos filmes tratam o sobrenatural com tanta elegância e respeito. A casa, o nevoeiro e os corredores fechados constroem uma sensação de clausura espiritual quase palpável. É uma obra que fala de fé, culpa e perda; transformando o medo em uma experiência silenciosa, introspectiva e devastadora.

6. O Nome da Rosa (1986)
Ambientado na Itália de 1327, o filme narra a missão do frei Guilherme de Baskerville, enviado para investigar denúncias de heresia em um mosteiro beneditino. No entanto, a morte insólita de sete monges em sete dias transforma a visita em uma investigação tão complexa quanto perigosa.
Sempre nutri um interesse especial pelo cotidiano das antigas abadias; por isso, tanto o filme quanto o livro homônimo de Umberto Eco tornaram-se peças importantes na minha formação. Associo essa obra a outras leituras que exploram o mesmo universo; em especial A Abadia dos Beneditinos, que aprofunda essa atmosfera religiosa, sombria e angustiante que sempre me atraiu.
O Nome da Rosa une fé, conhecimento e poder, revelando que o saber pode ser tão perigoso quanto a ignorância. O antigo mosteiro com seus corredores escuros, o labirinto da biblioteca e os livros proibidos ressoam profundamente com minha inclinação por narrativas sombrias, em que o sagrado e o profano se tornam peças movidas à luz de interesses duvidosos.
Os Livros O Nome da Rosa e A Abadia dos Beneditinos

1. O Nome da Rosa
O Nome da Rosa – Livro – Itália, 1327. O frei Guilherme de Baskerville recebe a missão de investigar a ocorrência de heresias em um mosteiro beneditino. Porém, a morte de sete monges em sete dias, em circunstâncias insólitas, muda o rumo da investigação. Primeiro romance do autor, publicado em 1980, tornou-se um sucesso de vendas, fazendo com que o italiano — conceituado professor de semiótica — alcançasse prestígio internacional como romancista. Marcada pela ironia de Eco, a narrativa é repleta de mistérios com símbolos secretos e manuscritos codificados.
2. A Abadia dos Beneditinos
A Abadia dos Beneditinos – Livro – Europa, século XIII. Macabras tramas ocorrem na Abadia dos Beneditinos, ordem religiosa imaginada pelo vulgo como um santuário de púdicos poderes e de orações, onde era prescrita aos monges uma vida de pobreza, castidade e obediência. Mas o que iremos testemunhar nesta obra é um outro panorama, de torpes ilusões, em que vinganças e perseguições parecem ultrapassar o limite da vida física. Em meio a um ambiente de medo e superstição medievais, vemos brotar as mais sinistras atividades do plano extrafísico inferior por meio de invocações, aparições e obsessões, interpretadas à época como feitiçaria e rituais demoníacos. Por entre as sólidas paredes do rígido mosteiro, dá-se, então, início à conspiração de uma organização secreta, revelando o contraste entre a aparente mansuetude cristã e as criminosas ações de seus habitantes. O enredo foi ditado pelo espírito do próprio Conde de Rochester à médium Vera Kryzhanovskaia, no ano de 1884.
Por enquanto é só, meus amigos. Em breve retornarei com a segunda parte de Os Treze Filmes de Minha Vida. Agora me digam: que filmes também marcaram a vida de vocês? Quais ficaram guardados no coração? Deixem nos comentários. Abraços fraternos.

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